A dúvida dólar ou CDB chega muito aos consultores financeiros em anos de incerteza econômica. É melhor comprar dólar e guardar, ou aplicar num CDB bem remunerado? Ambos têm apelo diferente — o dólar é percebido como proteção contra crise doméstica, o CDB oferece rendimento em reais com juros compostos conhecidos de antemão. E a resposta matemática, ao longo de 10 anos, costuma surpreender quem se decide pelo achismo.
Primeiro, o dólar. Nos últimos 15 anos, a valorização média do dólar frente ao real foi de aproximadamente 7,5% ao ano, considerando a cotação de compra do mercado oficial (ignorando spread de casa de câmbio, que come facilmente 2-3% em cada operação). Parece pouco? Sim, mas é o número histórico. Quem comprou dólar em 2010 e vendeu em 2025 teve retorno bruto médio nessa casa, com volatilidade altíssima ano a ano — em alguns anos subiu 20%, em outros caiu 10%.
Agora, o CDB. Um título que paga 110% do CDI hoje rende algo entre 11% e 12% ao ano, a depender da Selic vigente. Assumindo manutenção desse patamar (cenário otimista para o rentista), R$ 10 mil aplicados por 10 anos a 11% ao ano com juros compostos reinvestidos chegam a cerca de R$ 28.394 brutos. O mesmo valor em dólar, ao câmbio atual, com projeção histórica de 7,5% de valorização anual, resultaria em aproximadamente R$ 20.610 — e isso sem descontar spread de recompra. Olhando só pela rentabilidade nominal, na comparação dólar ou CDB, o CDB vence no papel.
O cálculo fica mais claro quando se faz a simulação com variáveis reais. Dá para rodar direto em https://calculadoraonline.org/calculadoras/calculadora-de-juros-compostos/ informando capital inicial, taxa anual e período — em segundos você vê o montante final e os juros acumulados, e compara lado a lado com o cenário alternativo.
Mas a comparação puramente de rentabilidade nominal esconde o ponto mais importante da questão dólar ou CDB: função na carteira. Dólar não é investimento de rendimento, é seguro contra eventos extremos na economia brasileira. Quando o real desvaloriza 30% em seis meses (já aconteceu mais de uma vez nos últimos 15 anos), quem tem reserva em dólar preserva poder de compra. Quem tem só CDB vê o patrimônio em reais crescer na árvore, mas encolher na prática para qualquer produto importado.
Os tributos também entram na conta. CDB tem IR regressivo (de 22,5% a 15%, a depender do prazo), e em 10 anos estaria na alíquota mínima de 15% no resgate. Dólar vendido com ganho de capital paga 15% sobre o lucro acima de R$ 35 mil/mês (para pessoa física) ou entra na declaração anual como rendimento sujeito à tabela regressiva. Carteira bem montada considera essa diferença de tributação antes de decidir alocação.
A inflação dos dois lados muda tudo. Se o Brasil rodar com inflação de 5% ao ano durante 10 anos, seu CDB de 11% tem retorno real de ~6%. Se os EUA rodarem com inflação de 3% no mesmo período, seu dólar aplicado lá fora (em títulos do Tesouro americano, por exemplo) precisa superar 3% para preservar poder de compra em dólar — e como hoje o T-Bond paga em torno de 4-4,5%, o ganho real é modesto.
Para quem está começando, a orientação convencional dos planejadores financeiros é alocar 10-20% do patrimônio em dólar (ou ativos dolarizados), 40-60% em renda fixa em reais, e o restante em renda variável e outros ativos. Não é regra absoluta, mas funciona como ponto de partida para a maior parte das carteiras de perfil moderado. A decisão dólar ou CDB deixa de ser “um ou outro” e vira “quanto de cada”.
A decisão “tudo num ou tudo no outro” é sempre pior que diversificar. Dólar sozinho expõe ao timing de compra (comprar a R$ 4,90 foi ótimo, a R$ 5,80 foi ruim). CDB sozinho expõe ao Brasil. Carteira bem pensada usa os dois — cada um na função correta.
Para números reais na sua situação, vale simular: capital que tem, aporte que consegue fazer, prazo previsto. O mesmo R$ 10 mil que cresce até R$ 28 mil em 10 anos, com aporte mensal de R$ 500, ultrapassa R$ 130 mil no mesmo período. Os juros compostos recompensam fortemente consistência de aporte, muito mais do que capital inicial alto.